Os papéis sociais e a fragmentação da personalidade

O exercício dos papéis sociais exige alguma fragmentação. Muitas vezes, precisamos assumir funções e atividades que não são totalmente compatíveis com nossas personalidades e interesses. Isso, obviamente, causa tensões e pode gerar algum tipo de frustração.

No entanto, dizer que se deve negar essa fragmentação é algo muito simplista. Ela, geralmente, é uma imposição da realidade social e fingir que ela não existe pode ser mais prejudicial do que seria aceitá-la.

Assumi-la plenamente, porém, também não é uma atitude saudável. Quem faz isso, não se torna muito diferente de um esquizofrênico, que cria diversas máscaras a fim de apresentar-se para os outros conforme as necessidades e as circunstâncias.

O certo é que a melhor maneira de lidar com essa fragmentação inexorável é vivenciá-la com inteligência e consciência, jamais deixando-se absorver por ela, mas, pelo contrário, tendo o pleno controle a partir sua própria personalidade unificada.

O importante é não permitir que esses papéis sociais assumam o lugar da personalidade real e se confundam com ela. O fato é que se alguém pretende manter a sanidade deve viver seus papéis sociais não como se fossem outras expressões de si, nem como outras personalidade, mas como roupas que se vestem, que não negam quem somos e apenas servem como instrumentos para que se possa transitar no meio social com mais desenvoltura.

A personalidade é única, as formas que ela pode usar para se manifestar, múltiplas. O erro ocorre quando confunde-se as duas coisas e as formas assumem ares de personalidade.

A personalidade sempre pode usar de formas específicas para manifestar-se. O que a personalidade não deve esquecer é de quem ela é e não deve jamais permitir que qualquer papel social se torne, de alguma maneira, um substituto para ela.

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Quando o rigor atrapalha

Nossa relação com aquilo que chamamos de produtividade pode ser muito opressora. Cobrar de si mesmo tornar-se alguém que cumpre exatamente todas as tarefas programadas, que não desperdiça tempo jamais, pode ser uma fonte sufocante de ansiedade. No fim das contas, atitudes assim servem mais para atrapalhar as realizações do que fazê-las acontecer.

Assim, a moderação aristotélica serve como medida para uma atitude que sempre tem o risco de cair em um extremo prejudicial. Porque se há aqueles que se perdem na preguiça, deixando de fazer muito do que poderiam, há também aqueles que, acreditando-se super-homens, impõem para si mesmos uma quantidade de tarefas quase impossível de ser cumprida, fazendo com que a mera tentativa desse cumprimento represente sério prejuízo a todas as outras áreas da vida.

Quantos casamentos, relações familiares, amizades, além de saúde, não são prejudicados pela entrega obsessiva a algo, fazendo que o cumprimento daquilo a que se determinou traga como única recompensa a mera satisfação de ter cumprido o planejado e mais nada?

O que à vezes nos esquecemos é que todas as tarefas que realizamos são meios para o alcance de determinados fins e, se esses mesmos fins forem prejudicados nessa busca, aquelas tarefas perdem completamente o seu valor.

De que adianta abandonar o convívio da família para ganhar dinheiro para a família? De que adianta esforçar-se para fazer tantas coisas se isso lhe roubará a saúde, impedindo-lhe de aproveitar os frutos do esforço? De que adianta abandonar os amigos e qualquer vida social na busca por sabedoria se não há exercício da sabedoria senão em meio ao convívio com as pessoas? De que adianta sofrer tanto em uma busca espiritual profunda, condenando-se pelas falhas cometidas, a ponto de afastar-se do amor divino, quando o encontro com o amor divino é o objetivo único dessa busca?

Claro que isso não significa que devemos ser malemolentes com o que se apresenta diante de nós. Nem que não devamos nos esforçar muito mais do que nosso corpo parece impor. No entanto, deve haver o cuidado para que o próprio esforço e, principalmente, a cobrança que fazemos sobre nós mesmos, em vez de nos ajudarem a alcançar o que queremos, sirvam de elementos dificultadores nesse processo em direção aos nossos objetivos.

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Não tenha medo de ganhar dinheiro

Um jovem, recém milionário, que havia acabado de solidificar sua fortuna ao desenvolver sistemas de tecnologia para internet, tendo mudado sua residência definitivamente de Nova York para San Francisco, fora questionado pelo repórter que o entrevistava sobre o que havia mudado em seu estilo de vida após ele sair de um padrão de renda mediano para a riqueza.

Sua resposta foi clara e objetiva: “Nada!”

Sem hipocrisia, ele explicou que, na verdade, o que havia mudado era que, antes, ele se preocupava com dinheiro e, agora que o possuía em abundância, não precisava mais esquentar sua cabeça com isso, podendo se concentrar no que realmente importava.

O fato é que muita gente tem medo de ganhar dinheiro, acreditando que almejar ficar milionário representa um tipo de ambição reprovável. Nós, que crescemos em um ambiente cultural forjado pela ideia da moderação, principalmente vindo da mentalidade cristã, inclusive em relação ao dinheiro, acabamos acreditando que há um certo tipo de pecado no acúmulo de capital, como se o simples fato de ter dinheiro tornasse a pessoa suspeita de impiedade.

O resultado disso é que, apesar de querer ter uma vida um tanto mais confortável, muitas pessoas criam um certo tipo de limitação, contentando-se apenas com o suficiente para viver razoavelmente bem, mas nada mais que isso.

A consequência é que, já que é impossível controlar exatamente quanto se pode ganhar, pois há variáveis infinitas que acabam determinando isso, muita gente acaba ganhando muito menos dinheiro do que teria a possibilidade e a capacidade de ganhar.

No fim das contas, acabam vivendo, até o fim dos seus dias, contando trocados, tendo de se preocupar se o dinheiro do mês cobrirá todas as despesas e não conseguindo deixar de pensar nos débitos jamais.

O que muita gente não entende é que ter muito dinheiro não precisa significar uma vida de dispêndio transloucado, nem de entrega desvairada às paixões que podem ser compradas. Ter muito dinheiro pode significar muitas coisas boas, como poder ajudar mais pessoas, poder viver de maneira tranquila, poder apoiar bons projetos, poder concentrar-se no que realmente importa nesta vida e, principalmente, não ser engolido pelo redemoinho das preocupações financeiras, que extingue a energia, tira o foco, suga os dias e abala os relacionamentos.

É verdade que há quem que não deveria ganhar tanto dinheiro, pois não sabe usá-lo de maneira sábia e virtuosa. Mas há muita gente que poderia enriquecer, de forma inteligente e altruísta, mas que não consegue, porque tem medo de ferir algum preceito divino.

Não tenha medo de ficar rico. Apenas peça a Deus que seu espírito esteja preparado para tanto. Melhor ainda, prepare-se mentalmente para ganhar dinheiro de maneira virtuosa e já pense como fará para torná-lo um instrumento de alegria e desenvolvimento para si e para os outros.

 

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Preguiça não é brincadeira

Falar sobre preguiça desperta, muitas vezes, algo meio lúdico, como se tratasse de uma brincadeira inofensiva. Mesmo sabendo que ela é um vício, algumas pessoas costumam vê-la apenas como uma travessura inócua, uma traquinice sem maiores consequências. Inclusive, sempre quando eu escrevo algo sobre o tema, há aqueles que fazem algum tipo de troça, tratando a preguiça até como algo agradável.

Porém, quem tem a experiência constante da preguiça sabe que ela não é tão inofensiva quanto parece. Uma vida que cede constantemente a ela sofre, mais cedo ou mais tarde, as sérias consequências de sua presença.

Quem já viu diversos projetos deixarem de ser concluídos, quem já teve de responder por danos causados por não entregar o que havia sido prometido, quem sente que sua vida é fundamentada em inconstância, quem vê o tempo passar sem conseguir construir nada, quem atinge uma certa idade mas sente-se um garoto imaturo que não consegue colocar em prática nada de mais importante e quem até já foi responsabilizado por não cumprir o que era sua obrigação sabe muito bem que a preguiça não tem nada de inocente.

Alguns podem brincar com o assunto e até dar a entender que com eles, apesar da preguiça, as coisas seguiram na normalidade. Isso pode até ser verdade. No entanto, provavelmente, tratam-se de pessoas que realmente têm um talento fora do comum, a ponto de suplantarem essa falha ou são pessoas que encontraram, por sorte, algo que lhes proporcionou algum retorno, independente do esforço. Porém, isso não é a regra. Em geral, a preguiça causa muitos males e atrapalha a vida de muita gente.

Quando resolvi abordar o assunto, como fiz em meu ebook Por que somos preguiçosos, foi porque eu percebi que havia algo de nefasto na preguiça, algo que acarretava consequências muito piores do que meros contratempos e inconveniências.

Passei a encará-la, então, como um vício, daqueles que precisam ser afastados da nossa vida se quisermos tomá-la de volta, se quisermos ter saúde, se quisermos manter a sanidade.

Eu, em uma época da minha vida, experimentei os efeitos da preguiça e eles não foram nada agradáveis. Cheguei ao ponto de que se não fizesse algo certamente veria ruir qualquer sonho e planos que havia estabelecido. E tudo isso não afetaria apenas a mim, mas minha família e aqueles que viviam em minha volta.

Quando eu falo sobre a preguiça, portanto, não estou abordando apenas um assunto curioso, que pode ser interessante para comentar. Estou falando de algo sério, de algo que eu sei pode mudar a vida de qualquer pessoa.

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A relação dos homens com a autoridade secular

A noção de autoridade secular, segundo a Bíblia, é de algo que se deve respeitar e até obedecer, porém por tolerância, a fim de não ter-se por rebelde. A modernidade, porém, criou a ideia de autoridade que não apenas deve ser obedecida, mas servida, e de onde deve-se esperar as soluções para as questões mais comezinhas da vida cotidiana.

A forma como as pessoas, hoje em dia, se referem à autoridade, esperando dela tudo e até criticando-a quando ela não vem acudi-las da maneira que esperam, é uma completa inversão de como o cristianismo ensina que deve ser a relação do homem com os poderes terrenos.

E tal atitude apenas cria, nesses que aguardam tudo dos governos, uma incapacidade de resolverem suas próprias vidas, de buscarem suas próprias soluções, de assumirem a responsabilidade total por aquilo que fazem e por aquilo que conquistam.

O cidadão moderno não sabe defender-se, não sabe prevenir-se, não sabe sequer preparar-se para o futuro. Tudo ele espera que lhe seja dado pelas autoridades e, quando elas não agem de acordo com suas expectativas, o que é a regra, aliás, então usam de sua maior força: o direito de reclamar.

 

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Quando a vida escapa

Toda pessoa se encontra diante de um desafio: não deixar-se perder na vida. A luta é por manter, até onde for possível, o controle da própria existência.

Não que possamos determinar tudo o que acontece conosco, mas, minimamente, somos capazes de dirigir-se em uma direção determinada, ainda que, algumas vezes, seja preciso retomar a rota.

Claro que existe o imponderável e contra ele não há prevenção. De qualquer forma, fora do que foge ao nosso controle, há um espaço razoavelmente largo onde é possível determinar o caminho que tomaremos.

Digo isso porque veja muitas pessoas que alcançam o último estágio de suas vidas, quando deveriam estar em paz e certos de terem construído algo, totalmente alquebrados, perdidos, com pendências diversas e ainda lutando, como se fossem jovenzinhos, por questões básicas.

Não tenho quase nenhum medo na minha vida, mas essa visão da velhice, confesso, me assusta.

Quando vejo um senhor, que já deveria estar gozando de um tanto de paz, esbaforido na busca do pão cotidiano, oprimido pelo peso dos insucessos e já sem qualquer esperança de ter sua situação transformada, isso corta o meu coração.

Um grande desafio é, portanto, não deixar a vida escapar pelos nossos dedos. Como fazer isso não é um segredo, mas passa, certamente, por exercícios diários de reflexão, decisão e cultivo do espírito.

Alguns conseguem e estes, de alguma maneira, se tornam mais felizes.

 

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A adaptação do sonho em uma carreira útil

O jovem costuma imaginar sua vida como se houvesse um caminho aberto, aguardando ele trilhá-lo, até a conquista de seus maiores sonhos. O sucesso parece-lhe apenas uma questão de planejamento e tempo. Passados os anos, porém, o peso da realidade costuma conduzi-lo a uma resignação fria, fazendo com que a esperança se transforme em conformismo, sem qualquer pretensão, senão a conquista do necessário para uma existência confortável.

O ideal seria, porém, que, em vez de acomodar-se em uma vida inútil, a decepção com a impossibilidade das altas conquistas o fizesse adaptar o que era quimera em algo factível. O que antes era um devaneio egocêntrico deveria transformar-se na convicção de completar uma carreira que apresentasse ao mundo, pelo menos, a tentativa de entregar uma boa obra, que fosse, e que representasse algo que estivesse além do mero desejo de satisfazer suas próprias vontades.

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Identificação com a atividade profissional

Trabalhador felizDecidi não exercer profissionalmente atividade alguma pela qual eu apenas obtivesse dinheiro, ainda que não houvesse nenhuma identificação com ela. Resolvi arriscar e tentar manter-me com algo que eu fizesse por convicção e me desse rendimentos financeiros como consequência.

Não é uma decisão fácil. Pelo contrário, haveria diversas outras opções que certamente me seriam mais rentáveis. Há trabalhos que estou capacitado a fazer que me dariam um retorno financeiro mais rápido e maior do que o que eu tenho hoje em dia.

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A luta pela sobrevivência do pequeno empreendedor

O sistema econômico brasileiro direcionado para o pequeno empreendedor é sufocante. Nele, há apenas duas alternativas e ambas tendem a tornar seu negócio inviável.

A primeira delas é a formalização plena da empresa, que acaba inserindo esse empreendedor em um sistema kafkiano de burocracia e exigências incompreensíveis por parte do Estado, que acabam fazendo com que a possibilidade da auferição de algum lucro se torne quase impossível.

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