Quanto vale um trabalho

Todo aquele que ingressa no mercado oferecendo seus próprios serviços se depara com um problema, que é a fixação de um preço para o que faz. Isso porque, apesar de haverem outras pessoas que exercem atividades semelhantes, o que cada um produz é único e não pode ser medido somente pela comparação.

O próprio mercado não determina um preço único para o serviço, mas o fixa de acordo com diversos fatores, sendo muitos deles subjetivos. Enquanto para um se dispõe a pagar mais, para outro semelhante aceita dispender valores mais modestos.

Isso mostra que, diferente da percepção de muita gente, não é possível determinar o valor de um produto ou serviço somente conforme o trabalho material executado. O esforço dedicado a algo informa apenas uma parte do quanto vale o serviço. Há, de fato, diversos outros elementos que influenciam o quanto vai ser pago por algo.

Não adianta olhar o trabalho como uma obra artística, que possui um valor intrínseco e invariável. Quando algo está disponível no mercado, quem determina o preço são os consumidores, não o prestador.

Ignorando isso, porém, cansei de ver novos empreendedores dizendo que não aceitariam receber valores inferiores ao que eles entendiam justos, mesmo com o mercado dando sinais claros de que não aceitaria tal imposição.

O resultado, quando isso acontece, quase sempre é inapelável: o empreendedor precisa ceder, ajustando seu preço ou acaba vendo seu negócio morrer.

Há nisso um certa dilema existencial, principalmente para aqueles que prestam serviços mais autorais e até que envolvam algum tipo de arte.

Isso porque esse tipo de empreendedor tende a olhar o que oferece não apenas como uma prestação de serviço, mas como uma obra, que, por isso mesma, possui um certo valor intrínseco que deve ser respeitado por quem a consome.

No entanto, se ele quiser se manter no mercado, precisa entender que o valor de qualquer trabalho é determinado exatamente por aqueles que pagam por ele.

Diante disso, surge aí uma disputa interna que precisa ser resolvida, que é o quanto o ele está disposto a abrir mão de sua percepção de valor do que faz em favor daquilo que o mercado está se dispondo a pagar por ele.

E solucionar isso é inescapável, a não ser que encontre meios de mudar a percepção do mercado.

O efeito Uber no mercado de transporte paulistano

Quando eu defendo a liberdade para aqueles que atuam no comércio, com o mínimo de regulação possível e deixando, o máximo que der, os próprios consumidores decidirem o que é bom e o que deve ser descartado, não faço isso por qualquer questão ideológica. Apenas tenho a convicção que essa é a melhor forma de se conseguir com que os serviços sejam melhores e os preços menores.

Mais uma vez a realidade tem mostrado que é isso mesmo que acontece, quando se permite que empresas atuem com liberdade, fomentando assim a concorrência.

Quando o aplicativo Uber iniciou suas operações na capital de São Paulo, houve muita discussão, quebra-quebra e até alguma violência, principalmente por parte daqueles que se sentiram mais prejudicados: os taxistas.

O governo, então, proibiu o Uber, depois o permitiu e depois exigiu dele uma pequena taxa (justa, por sinal).

Agora, com o serviço já bem estabelecido, não havendo mais o que discutir sobre sua atuação na cidade, são os próprios taxistas que contra-atacam.

Como é possível ver nessa matéria do Estadão, eles vão iniciar uma campanha de descontos nos valores das corridas. Os preços de quem aderir a campanha serão 30% menores do que os praticados usualmente nesse mercado.

Esse é o resultado evidente da concorrência, pois, como diz a matéria, além de dar competitividade aos táxis, a campanha pretende recuperar clientes que migraram para outros serviços, como o Uber.

É evidente que toda mudança exige um período de adaptação e algumas perdas para algumas pessoas. No entanto, o resultado final acaba sendo invariavelmente positivo para a sociedade. E não é isso mesmo que busca qualquer sistema econômico?

Há, ainda, a questão, neste caso, dos próprios taxistas que, por um lado, têm razão em suas reclamação. Isso, no entanto, vou analisar em outro artigo.

Dom divino por nada

O que há de mais precioso na vida de uma pessoa é sua liberdade. Ser o responsável por sua própria vida e definir o próprio destino é um dom divino. É isto que dá sentido para a existência do indivíduo e é isto que reflete sua imagem e semelhança com o Criador.

No entanto, nos tempos modernos, boa parte das pessoas não exita em trocar a graça da liberdade por um prato de lentilhas. Em troca da proteção estatal e do recebimento de privilégios, abre mão de ser o dono de seus próprios bens maiores. Prefere colocar-se sob a mão forte do Estado, em troca do que acredita ser garantias de segurança, paz e prosperidade.

É até difícil argumentar com quem pensa dessa forma, pois, para ele, esperar que o governo lhe conceda o que acredita ser seu direito é algo que já está impregnado em sua maneira de raciocinar. Ele já não consegue imaginar uma vida sem ter, por parte dos poderes constituídos, suas prerrogativas atendidas.

Muitas pessoas, inclusive, planejam seus dias, até o fim deles, baseados naquilo que o Estado promete conceder-lhes. Não é por acaso que o sonho de adentrar ao funcionalismo público e se aposentar são os maiores objetivos que encontramos na gente por aí.

Saúde, educação, emprego, segurança – tudo é lançado sobre as costas do governo, e quando ele não consegue cumprir, de maneira satisfatória o serviço prometido (o que é acontece sempre), o que sobra para os beneficiários é a reclamação.

Nos tornamos, então, uma sociedade de chorões, onde tudo se espera que se faça por ela. Aqui no Brasil, em geral, não desenvolvemos a cultura do “do it yourself“. Pelo contrário, até nas questões essenciais, como na educação dos filhos, esperamos que o governo dê um jeito.

O problema é que tudo o que as autoridades podem oferecer, por conta de sua natureza burocrática, é frágil e capenga. Nenhum serviço público jamais irá funcionar com perfeição pelo simples fato de ser público. Isso porque ele está, por sua natureza, amarrado em regras e resoluções que o impedem de ser eficientes. Aliás, é da sua essência ser ineficiente.

No entanto, por pior que sejam os serviços oferecidos e precários os direitos concedidos, quem se submete ao Estado acaba envolvido em suas garras. Viver sob a tutela dele, além de se tornar um vício, cria uma teia de amarrações que impedem qualquer pessoa de desenvolver-se como indivíduo.

Há, portanto, a pior troca que possa haver, em uma verdadeira síndrome de Esaú que acomete boa parte da população brasileira. Tendo, naturalmente, à sua disposição o dom divino da liberdade, da responsabilidade e da direção da própria existência, o brasileiro prefere trocar tudo isso por umas migalhas. Por medo, insegurança e imaturidade, ele abre mão de ser ele mesmo, e passa, em vez disso, a ser apenas uma célula minúscula, imperceptível e irrelevante dentro do grande Leviatã.

Nosso futuro é de abundância

Quando as pessoas pensam no futuro, não é difícil imaginarem um mundo pós-apocalíptico, onde os recursos naturais estarão escassos e as dificuldades por causa da superpopulação evidentes. Profetas do terror, ambientalistas e socialistas do presente têm levado muitas pessoas a um estado de histeria, fazendo com que elas fiquem desesperadas com o fim próximo da vida abundante como estamos experimentando hoje.

Este é o tom dado pela maioria dos pensadores da atualidade. Entretanto, dois deles, pelo menos, estão convencidos de que o rumo das coisas é bastante diferente dessa tragédia anunciada pelos intelectuais e cientistas do nosso tempo.

Em seu livro, Abundância, Peter H. Diamandis e Steven Kotler defendem uma idéia que sai do lugar comum do pessimismo reinante e afirmam que não temos muito com que nos preocupar quanto ao gerenciamento dos recursos e dos bens no futuro. E a fonte da convicção deles é bem objetiva: com o desenvolvimento da tecnologia, aquelas dificuldades que hoje parecem insuperáveis, serão vencidas e, com isso, aproveitaremos os recursos disponíveis de tal maneira, que os problemas de hoje parecerão ridículos para quem experimentar tais conquistas

E, para começar a ver que o que eles dizem não é nenhuma sandice, basta observarmos a nossa experiência atual. Hoje, usos triviais de nossa vida cotidiana, sem os quais já nem imaginamos viver, como os meios de transporte e de comunicação, eram impensáveis há pouco tempo. Agora, usamos desses meios como se sempre estivessem ali e as dificuldades superadas por eles, de fato, parece até que jamais existiram. No entanto, para as pessoas de tempos atrás, imaginar que essas conquistas pudessem ocorrer era imprivável.

Quem imaginaria, por exemplo, que o mundo chegaria até o número de sete bilhões de habitantes e, ainda assim, capaz de produzir comida suficientes para alimentá-los? Quem imaginaria que seria possível criar meios eficientes de distribuição dessa comida? Todavia, assim é feito, como resultado do desenvolvimento de tecnologias, as quais sequer prestamos mais atenção, mas que não existiam há pouquíssimo tempo

Diamandis e Kotler não têm dúvidas: o desenvolvimento tecnológico encontrará, como tem encontrado até aqui, soluções diante das ameaças de escassez propagandeadas pelos ambientalistas. Energia, água, alimentação e outras demandas serão, de uma maneira ou de outra, supridas pelos desenvolvimentos tecnológicos.

Entre outras, uma das razões exposta por eles para ter a convicção de que a tecnologia suprirá as ameaças de escassez é o que eles chamam de padrão de crescimento exponencial. Explicando de maneira bem sintética, significa que a tecnologia evolui de maneira constante, principalmente por causa do conhecimento acumulativo, e tende a aumentar a velocidade desse crescimento, em muitas vezes, em determinado momento dessa evolução. Os telefones são um perfeito exemplo disso. Por anos, eles foram evoluindo de maneira gradativa, até chegar em um determinado momento que o crescimento tecnológico foi tal, que um ano passou a ser suficiente para tornar o modelo antigo obsoleto.

Só isso, segundo eles, já é suficiente para saber, de maneira segura, que as soluções para o que ainda hoje é considerado problema sejam criadas. Assim, não haveria porque se preocupar demais com as falas dos alarmistas, já que eles apenas consideram o futuro segundo a tecnologia que temos no presente, o que seria um sério erro de avaliação.

E algo bastante interessante em tudo o que o livro traz é a verificação de que tais soluções, invariavelmente, são frutos do empreendimento particular. Seja por pequenos grupos ou mesmo pela ação individual, as grandes criações e descobertas surgem de mãos privadas. Daqueles, que os mesmos ambientalistas e socialistas sempre esperam as resoluções dos problemas, a saber, o Estado e as Corporações, dificilmente surge algo realmente inovador. São as pessoas, em seus interesses mais pessoais, que acabam desenvolvendo o que é preciso para o bem da humanidade

Não sei se todas as previsões dos autores, em todos os seus detalhes, se cumprirão. Na verdade, ninguém sabe. No entanto, uma coisa é certa: todo alarde feito por quem vive do terror social é puro ato político. A sociedade já deu provas, mais que suficientes, que os homens possuem inteligência o bastante para transpor as dificuldades que se impõem. Esta é a mensagem do livro. E ela é uma mensagem de esperança e otimismo, coisas que quem vive da ideologia não possui, definitivamente.

Autoconhecimento para educar a vontade

A realização de algo minimamente importante exige que planos sejam feitos. Com estes, vem a imagem dos projetos sendo realizados e os sonhos se cumprindo. Neste momento, a alegria esperançosa e a expectativa motivadora são degustadas deliciosamente. Quando, porém, a realidade se apresenta, nua, crua, impiedosa, quase sempre, com ela, chega a decepção. O previsto não aconteceu, o programado não foi cumprido, na execução constatou-se que o planejamento era insuficiente e que diversos outros fatores se apresentam, implacáveis, como inibidores da tarefa. O pior é constatar que, apesar de toda motivação, a força-de-vontade mostrou-se débil e muito do que poderia ter sido feito deixou de sê-lo por simples falta de disposição.

Diante disso, a sensação de derrota se apresenta inapelável. Ao não conseguir realizar o determinado, não há outro sentimento senão o de decepção consigo mesmo. É como a característica mais marcante em si fosse a incompetência.

O pior é que a culpa gerada pelo descumprimento do planejamento dificilmente conduz a uma mudança efetiva de atitude. Pelo contrário, ela acaba criando um ciclo de promessas descumpridas que redunda, invariavelmente, em desânimo.

Para quebrar esse círculo vicioso é necessário bem mais do que boas intenções. Só vence a preguiça, a letargia e a falta de perseverança quem compreende como a natureza humana opera a força de vontade.

O maior erro que pode ser cometido, nesse caso, é acreditar que basta determinação para superar os vacilos da vontade. Para isto, na verdade, é preciso saber que o ser humano é complexo e sua mente não age exatamente como esperamos que ela agisse, sempre. Pelo contrário, há armadilhas e artimanhas psicológicas que costumam sabotar as melhores intenções, tornando o que parecia simples, a saber, cumprir com o que foi proposto, uma verdadeira tragédia.

É possível, mesmo assim, vencer essa batalha. Porém exige-se, para tanto, conhecimento e método, não bastando impulsos e atos improvisados. Aliás, isso faz parte do tão aclamado autoconhecimento, sempre necessário para empreender bem qualquer coisa na vida.

De fato, a partir do momento que as coisas já não são mais um mistério, elas se tornam passíveis de ser dirigidas. Com a força de vontade ocorre exatamente dessa maneira.

 

O esforço necessário ao exercício intelectual

Em uma cultura como a brasileira, tão avessa às questões mais elevadas, o empreendimento intelectual costuma ser visto como uma forma fácil de se viver, que não exige esforço, que não resulta em suor. As pessoas tendem a valorizar o esforço físico, vendo este como verdadeiro trabalho, enquanto quem passa o dia atrás de uma mesa, ainda que seja escrevendo uma enciclopédia, não tarda a ser chamado de sedentário.

O que muita gente não entende é que o esforço físico é muito menos exigente do que o esforço intelectual. Para aquele, basta o hábito, o movimento e logo todo o corpo tende à obediência. O esforço físico demanda, apenas, o impulso inicial. Normalmente, todo o resto pode ser feito com automatismo. Existe a fadiga, é verdade, mas elas chega apenas após a repetição do ato. O corpo humano, animal, é feito para a ação. Assim, com um pouco de vontade, ele não demora a obedecer e a trabalhar.

O cérebro, porém, não é tão obediente, assim. Ele reclama por muito mais; ele exige atenção. A mente não é tão submissa, como é o corpo. É que o esforço intelectual parece ir de encontro à natureza, mesmo a humana. Pensar, raciocinar, refletir pertencem a um nível superior de existência, que não se coaduna, de maneira tão espontânea, à esta tão bestial. Assim, o esforço intelectual torna-se excessivamente trabalhoso. Como ele exige atenção constante, diferente do exercício físico, que pede apenas um impulso, seguido por atos instintivos, se torna muito mais difícil mantê-lo por um tempo prolongado. Basta ver que para a grande maioria das pessoas é muito mais cansativo escrever uma carta, com dez linhas, do que pintar uma parede. As academias sempre estiveram mais cheias que as bibliotecas, e isso não é por acaso.

Se alguém, portanto, pretende empreender uma atividade que lhe demande esforço intelectual constante, deve ter consciência que se defrontará com uma batalha muito difícil. Deve saber que não bastará boa vontade, mas precisará aprender como superar, ainda que temporariamente, a fragmentação para a qual todos estão sendo conduzidos. E se quiser vencer esse embate, será preciso conhecer a natureza humana, com suas tendências e estrutura, além de compreender como o cérebro trabalha, seus caminhos, seus truques e suas reações.

Diferente do que muita gente pensa, uma vida de esforço intelectual não é glamourosa, que pode ser exercida nas pausas, nos momentos de recreação. Pelo contrário, ela exige entrega e, se for desenvolvida com seriedade, dificilmente sobrará muita energia para qualquer outra coisa.

 

O respeito à limitação da vontade

Passei a minha vida lutando contra aquilo que eu considerava ser uma preguiça indômita em minha vida. Fiz preces, clamei, pedi, lutei, tudo para superar o que eu considerava ser uma falha em meu caráter. Pensei, durante muito tempo, que meu maior problema era uma falta de disciplina que, se dominada, colocaria minha vida nos eixos.

O problema é que, apesar de todos os esforços e tentativas de transformar isso que eu considerava um amontoado de maus hábitos, e de ter consciência da necessidade de mudança de meu ritmo de vida, quando obtinha alguma conquista, logo ela era perdida para os velhos vícios da procrastinação e da letargia.

As coisas apenas mudaram quando aprendi que a força de vontade é algo limitado. Que não seria possível, ainda que eu quisesse, manter os mesmos níveis de atenção e esforço durante todo o dia. Que, quando eu me esforçasse muito em um projeto, dificilmente, na mesma jornada, conseguiria desenvolver outro com a mesma determinação.

Isso me fez entender que eu precisava ser racional ao montar a minha agenda. Que eu deveria entender que era necessário dividir as tarefas respeitando uma certa limitação, que não era minha, mas humana.

A partir disso, não apenas a produtividade aumentou muito, mas dois outros ganhos surgiram, como conseqüência: o sentimento de liberdade, oriunda de não se sentir escravizado por planejamentos inalcançáveis e a sensação de satisfação, resultado de, agora, conseguir cumprir a maior parte dos projetos que me proponho a realizar.

A entrega exigida do autor intelectual

Para empreender uma vida intelectual produtiva, muita concentração é exigida. Não apenas aquela atenção necessária para o momento da produção, mas uma consciência quase intermitente das razões fundamentais e dos objetivos buscados. Como o trabalho intelectual, quase nunca, é fruto de um átimo, não basta separar momentos de isolamento e dedicação exclusiva, mas é preciso que a matéria da qual trata esteja constantemente na mente do autor.

Para que isso se torne realidade, o que ele deve achar é aquele pensamento essencial que será o alicerce de todos os outros. Sem ele, a produção intelectual é impossível. É por isso que é tão difícil esse empreendimento. Por isso, tão poucos enveredam por essa estrada. Eles sabem que não há nada mais tormentoso para o homem do que fazer com que seus pensamentos sejam claros e coordenados. O esforço exigido é muito grande. E não há nada no que sejamos mais preguiçosos do que no exercício mental.

Na verdade, a vida intelectual é uma vai e vem constante de ideias que, como ondas, se aproximam e se afastam. Às vezes, elas são nítidas e fortes, podendo ser descritas com fidelidade, outras vezes são apenas uma imagem pálida, distante, que dão apenas uma sugestão do que realmente são. Como o autor, porém, não sabe se na hora do seu trabalho essas ideias estarão próximas e nítidas ou distantes e indiscerníveis, seu desafio é, mesmo nos instantes de descanso, tornar tais pensamentos mais constantes e mais claros, a fim de que possam ser colhidos a qualquer momento.

O que eu quero dizer é que quem produz algum trabalho intelectual não pode ficar à mercê da inspiração ou do insight. Eles são úteis e, muitas vezes, são o início de um trabalho relevante. Mas a obra intelectual, mais que o compartilhamento de momentos de genialidade, é o desenvolvimento de algo grandioso, que se revela aos poucos, até se mostrar como uma obra sólida e bem trabalhada.

De fato, um trabalho intelectual é mais do que o reflexo de uma inteligência arguta, mas o produto de uma mente insistente, que, o tempo todo, procura dar cores nítidas a ideias que, em princípio, são apenas pensamentos lívidos.

Por isso, diz-se que a vida intelectual é uma entrega. Quem decide por ela, não mais tem a paz dos ignorantes, que amortecem seus cérebros, evitando exercitá-los na tentativa de compreensão da realidade. Quem escolhe a vida intelectual deve saber que, a partir desse momento, terá a tensão como companheira, pois os elementos a serem concatenados são diversos, os recursos para juntá-los, escassos, e a energia para unificá-los, reduzida.

Sem medo do estresse

A psicóloga americana, Kelly McGonigal, tem defendido a tese de que o estresse, diferente do que se pensou até aqui, não é, necessariamente, algo prejudicial à saúde. Tudo depende, segundo ela, da forma como a pessoa lida com ele. Segundo seus estudos, se a pessoa encara o estresse não como uma ameaça, mas como um equipamento útil para a ação, isso não lhe causará danos ao coração, muito pelo contrário, o fortalecerá.

Diante disso, uma pergunta óbvia, e com a qual a Dra. McGonigal se deparou, é: se poderia ser considerada uma decisão inteligente, levando em conta as pesquisas apresentadas por ela, a escolha por um estilo de vida estressante.

Sua resposta não poderia se mais lúcida. Ela disse que a pessoa deveria escolher aquilo que lhe dá sentido e, diante disso, aprender a lidar com o estresse resultante dessa escolha.

Algo bastante útil e esclarecedor.

Escrever contra a depressão

Eu nunca fiz terapia. Na verdade, nunca me senti necessitado dela. Não que eu seja uma pessoa absolutamente equilibrada e totalmente bem resolvida, mas, do meu próprio jeito, sempre encontrei meios de vencer as tendências depressivas da alma.

E, algumas vezes, essas tendências surgiram com bastante força. Mas, apesar de ter um temperamento que, em parte, é melancólico, tenho consciência que não foi por ele que, de vez em quando, surgiram os impulsos negativos. De fato, eles surgiram, normalmente, como fruto dos desafios da vida, das frustrações e das dificuldades.

Sendo assim, sempre cuidei de me atentar para quando os primeiros sinais de melancolia começassem a aparecer. Aquela falta de vigor, a energia que não vem, o desânimo diante dos desafios da vida; quando essas coisas surgem, em mim, por mais de dois dias seguidos, desperto o alerta, com o intuito de não permitir que esses sentimentos evoluam para algo mais grave, como uma depressão, por exemplo.

E para impedir isso, recorro a alguns métodos que sempre funcionam muito bem comigo. O primeiro deles é a própria consciência da minha fragilidade. Saber que, apesar de nunca ter sofrido com a depressão, eu não estou absolutamente livre dela, ajuda-me a precaver-me. Aliás, esta é uma das causas de muitas pessoas entrarem em estado depressivo: por nunca terem experimentado-o, acreditam que não estão sujeitos a ele. Assim, aos primeiros sinais de melancolia, tomo a precaução de buscar formas de superá-la.

No entanto, entre os vários meios que utilizo para vencer o perigo, o mais eficaz, para mim, sempre fora a escrita. Escrever meus sentimentos, mas não apenas eles, e, sim, despejar nas letras meus pensamentos e raciocínios me ajudam a mitigar a depressão que, às vezes, começa a querer instalar-se.

Isso porque um fator que, mesmo que não seja a causa imediata, colabora para o aprofundamento do estado depressivo é o raciocínio circular que o doente começa a desenvolver. Quando se instala, o enfermo já não consegue mais encontrar alternativas à insistência da negatividade nos pensamentos. Por mais que queira, sua razão, teimosamente, lança-o em uma repetição incansável de sugestões deprimentes.

Ao escrever, porém, por mais que o início do exercício sempre demande um certo esforço, pois a cabeça e o corpo, nos momentos de pré-depressão, parece que exigem a alienação de tudo o mais, sinto como se as paredes que se levantam para me manter preso em um cubículo de raciocínios negativos e circulares comecem a ruir. E conforme mais eu escrevo, mais ar eu sinto que respiro, até chegar ao ponto que aquilo que era um estado de sufocamento se torna em sensação de libertação.

Expor pensamentos por meio da escrita exige do escritor ir além dos raciocínios que o cercam. Escrever é abrir horizontes, é forçar a si mesmo desbravar matas cerradas, que precisam ser transpostas com o uso de golpes insistentes contra aquilo que se põe no caminho. Isso, obviamente, faz com que ele seja forçado a lançar-se fora da obsessão negativa que o cerca.

Além disso, escrever, principalmente para leitores, é um ato de amor. Quem escreve para ser lido está, da maneira mais altruísticamente possível, compartilhando conteúdos que pertencem apenas a ele mesmo. Isso, sem dúvida, é um eficiente modo de vencer o ensimesmamento típico do estado depressivo. A depressão causa, naquele a quem acomete, um círculo vicioso de pensamentos onde apenas ele mesmo importa, apenas sua situação presente é considerada. Não há interesse, nem energia, para cuidar de nada mais, nem se preocupar com ninguém mais. O ato de escrever, portanto, me parece muito eficiente para vencer esse problema. Ao doar aquilo que está em mim, a fim de que outros leiam, dou um passo decisivo para sair daquele estado de pensamento egoísta. Como dizia Chesterton, ao pregar (no meu caso, por meio da escrita), dou a primeira prova de generosidade e, por ela, começo a deixar para trás aquilo que caracteriza os depressivos: a introversão obsessiva.

É por isso que o ato de escrever, para mim, é tão importante. Eu sei que ele vale mais do que um exercício intelectual. Na verdade, ele é o antídoto contra o egoísmo e obtusidade típicos do estado depressivo. Ao compartilhar meus pensamentos, experimento a caridade, que é inafastável da pregação que todo o escritor realiza. Ao colocar à disposição dos outros aquilo que existe apenas em mim, deixo de ser apenas eu no mundo e passo a ter com as pessoas algo em comum. Diante disso, não há depressão que resista.